A HISTÓRIA DA V. GUILHERME, POR VOVÔ ED

R. Laurindo Sbampato 235, V. Guilherme - Setembro/2008

Em meados de 1910, um rico comerciante de nome Guilherme Praun da Silva, compra da baronesa Joaquina Ramalho, mais precisamente no dia 12 de setembro de 1912, uma grande área de terras. Vislumbrava-se aí o nascimento de um dos mais pujantes núcleos urbanos que a cidade de São Paulo iria possuir, a Vila Guilherme.

Construção do Grupo Escolar Afrânio Peixoto e fachada de entrada do Trote

Vendo nos imigrantes portugueses uma grande disposição de trabalho, Guilherme Praun vendeu para eles muitas chácaras a preços módicos, para que ali instalassem cocheiras, oficinas de ferreiros e carvoarias. A nova povoação em desenvolvimento necessitava de uma passagem de fácil acesso ao outro lado do rio, onde ficava o bairro do Pari. Então, através de recursos próprios e de amigos, Guilherme construiu a ponte de Vila Guilherme sobre o rio Tietê. Em continuação à ponte, abriu a avenida Guilherme.

Animados com o repentino crescimento da região, novas obras surgiram para montar a infra-estrutura necessária a qualquer aglomerado urbano: construiu-se o Clube Hípico de Vila Guilherme (SPT - Sociedade Paulista de Trote), farmácia, grupo escolar, delegacia de polícia, a olaria e outros melhoramentos. Guilherme Praun resolveu então, lotear suas terras, as quais denominou de Vila Guilherme. Dando a cada uma das ruas, praças e avenidas os nomes de seus familiares, amigos e figuras que estavam relacionadas com a história do bairro.

Eis que surgem, rua Maria Cândida, homenagem a sua esposa; rua Amazonas da Silva (seu primeiro filho); rua Ida da Silva, sua filha; rua Alfredo Praun da Silva, seu outro filho; rua Joaquina Ramalho, em homenagem a filha do barão Ramalho, que lhe vendeu as terras; rua 12 de Setembro, data da compra; rua Chico Pontes, a um dos primeiros moradores do bairro; rua Coronel Jordão, homenagem ao seu sogro Jordão do Canto e Silva; praça Oscar da Silva, seu segundo filho e várias outras ruas sempre com nomes de seus parentes e amigos.

No início da década de 1930, em tempos de grandes mudanças sociais e políticas em todo o país, a Vila Guilherme já era um dos bairros mais conhecidos da capital, em razão de sua população e do trabalho desenvolvido pela família do sr. Guilherme Praun.

Sociedade Paulista do Trote, Vila Guilherme

"A VILA GUILHERME FAZ PARTE DA MINHA VIDA"

O relato acima faz parte da história vivida pelo sr. Edgard Martins, um simpático velhinho de 69 anos, conhecido também como vovô Ed. O sr.Edgard relembra as grandes mudanças ocorridas nos últimos 50 anos, "foram muitas mudanças, lembro-me ainda quando íamos nadar e pescar no rio Tiete", disse.

Nascido e crescido na Vila Guilherme, Edgard já morou na rua Maria Cândida e hoje mora na rua Laurindo Sbampato: "A Vila Guilherme faz parte da minha vida, resido nela há 69 anos". Vovô Ed conta que freqüentou a Escola Mista São Luiz e depois o Grupo Escolar Afrânio Peixoto, na praça Oscar da Silva, onde fez parte da turma dos clubes Aliança e Luzitano.

Turma Afrânio Peixoto, com o jovem Edgard, em 1945
Vovô Edgard

Edgard recorda com saudosismo quando se juntava aos amigos, na esquina das ruas Galatéia e Chico Pontes para assistir aos filmes do Cine Ryan, entre eles: Roy Rogers, Buk Jones, Rock Lane, Doris Day, Oscarito e Grande Otelo, filmes como "O Cangaceiro" ou filmes com a nossa saudosa Dercy Gonçalves, Mazzaropi, Zé Trindade, Ankito, Anselmo Duarte, "embora tenha esquecido de muitos filmes, muita coisa restou ainda na minha memória", lembra Edgard.

E como não poderia ser diferente, as lembranças do vovô Ed confundem-se com a transformação do bairro, como o Zoológico do Agenor, que hoje dá lugar a um grande estacionamento de automóveis. Ou então o Laboratório Sintex, na rua Maria Cândida, que agora abriga uma grande universidade, a UNIBAN. E por falar em Maria Cândida, Edgard relembra que na esquina das ruas Maria Cândida e Desembargador Urbano Marcondes, ficava a garagem dos ônibus da linha 57, que levavam os moradores da Vila Guilherme ao centro da cidade. Outra saudosa lembrança do vovô Ed foi o nascimento do grupo folclórico, "os Pauliteiros de Vila Guilherme", que se apresentavam na várzea do Glicério, no antigo Parque Shangai, "eram lindos espetáculos que ajudaram a enriquecer o nosso folclore", relembra Edgard.

Apesar das grandes mudanças, muitas peculiaridades permaneceram no bairro, como a igreja Nossa Senhora da Anunciação, construída pela comunidade local onde o Edgard casou e batizou os filhos. "Como podem ver, a Vila Guilherme foi do início brejeira com suas chácaras, carroças e seus moradores, a uma Vila Guilherme progressista, cosmopolita que continua muito viva" disse. Vovô Ed termina nossa entrevista com uma grande declaração de amor ao seu bairro, "adoro a minha Vila Guilherme".

Texto: Fernando Figueiredo
Fotos antigas cedidas pelo Sr. Edgard