MÃE ÁFRICA - AS TRÊS RODAS DA RESISTÊNCIA NEGRA

Quadra da X9 Paulistana - 10/Abr/2010

Em ano de Copa do Mundo na África do Sul, um assunto ocupa as discussões entre os afro-descendentes que vivem no Brasil: a lei 10.639/03, que precisa ganhar aplicação prática. Esse tema foi debatido em um recente encontro na quadra da escola de samba X-9 Paulistana.

Momentos do debate sobre cultura afro brasileira na X-9 Paulistana.


A lei trata da obrigatoriedade de ensino da cultura e história africanas nas escolas municipais e estaduais, sem os tons colonialistas que sempre dominaram a pedagogia a respeito da atuação dos negros no Brasil. No evento "Mãe África - As três rodas de resistência negra" o debate foi aberto para que diversos representantes das comunidades afro descendentes brasileiras se manifestassem a respeito da implantação da Lei. Há algumas falhas e dificuldades. Por exemplo, a não obrigatoriedade de determinadas horas-aulas a respeito do assunto, e o critério pessoal de cada professor para implementar ou não a temática.

Segundo a profa. Shirley Diniz, da Diretoria Regional de Educação Jaçanã-Tremembé, "já há alguns anos houve um curso de formação na prefeitura, chamado A Cor da Cultura, no qual professores da rede municipal receberam material e orientações para implementação da Lei. Porém infelizmente poucos fizeram e colocaram em prática, e em muitas escolas o material fica guardado nos armários."

Shirley, que também atua o ensino estadual, informa que "no Estado começaram algumas formações este ano, na Diretoria Norte 2. Vamos fornecer material e capacitação para os educadores que se interessarem pelo assunto. Como tudo é fora do horário do professor, dificulta muito a adesão, pois a maioria tem dois trabalhos". Na sua opinião "os negros são a maioria nas nossas escolas públicas, nada mais coerente do que falar da cultura que nos é peculiar e valorizá-la, e exterminar o racismo, que muitos dizem não existir." Segundo a profa. Shirley, muitos educadores sequer sabem da existência da Lei.

Mesa diretora do evento.


Já na opinião de Hélcio Barbosa Jr, o Airá Qutanji, que é diretor da ONG Casa de Airá, com atuação em Cotia com educação Africana e Candomblé, "para além dos aspectos jurídicos temos que refletir a dificuldade que é a aplicação de uma lei que estabelece conteúdos escolares." Segundo ele, ao que tudo indica, as instituições que cuidam desse setor não parecem estar aptas para resolver essa situação.

Segundo Hélcio, "mesmo que uma parcela da sociedade julgue a lei como separatista, racista, radical, ela se faz necessária a fim de garantir um estado legítimo de direitos". Para ele, "se houvesse a compreensão e a aceitação de se reconhecer como tal, uma sociedade pluriétnica, portanto, feita de pessoas diferentes, mas portadoras dos mesmos direitos, com certeza não seria necessário a aplicação de tantas leis específicas. Essa lei vem retificar erros historicamente cometidos.", considera Hélcio.

A Lei existe e precisa ser aplicada. Passou por todos os trâmites que uma Lei precisa para ser aprovada, demonstrando a importância da mesma. De qualquer forma, se pensarmos que um dia o Brasil formou uma placa tectônica única unida à África, podemos perceber que somos todos originários de um mesmo lugar.

Minudências

@ Clique AQUI e AQUI para ver duas experiências de cursos de cultura e língua africanas em escolas públicas da ZN, levadas adiante pelo coletivo Literatura Suburbana.

@ Para saber mais sobre a Lei e as questões Afro Culturais acesse o site http://www.afroeducacao.com.br/

@ Para uma imersão na Cultura Africana, visite o Museu Afro Brasil, que fica no Parque do Ibirapuera. Fones 5579-8542 / 5579-7716 / 5579-6399



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Hlcio Barbosa Junior
Parabéns pela matéria ZNnalinha, a discussão não é exclusivo dos afro-descendentes, mas da sociedade brasileira como um todo.
Ricardo Costa
Parabéns ao ZNnalinha por apoiar esta causa!!!
Ricardo Costa
Estive no encontro e apoio integralmente a iniciativa da lei e sua aplicação efetiva. É fundamental lembrar que lá estavam presentes, importantes lideranças do Candomblé: Pai Pece de Oxumarê, do tradicional terreiro baiano Ilê Axé Oxumare, Makota Valdina, da nação Angola em Salvador e Gilberto de Exu, de São Paulo. Para a compreensão e aceitação plena de nossa raiz africana, não podemos ignorar o Candomblé, uma vez que todo conteúdo africano que chegou até nós foi mediado pelo Candomblé. Além de religião, o Candomblé é um dos complexos culturais que constituem a identidade cultural brasileira.
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