TREMEMBÉ: 118 ANOS DE LEMBRANÇAS E SAUDADES
Distrito do Tremembé: 56,3km2 e 183.00 habitantes - 10/Nov/2008
Por volta de 1890 chegaram ao vale do ribeirão Tremembé os primeiros imigrantes europeus, compradores de chácaras desmembradas da fazenda da família Vicente de Azevedo. Esse é o ano de fundação do Tremembé. O dia 10 de Novembro foi oficializado pela Câmara Municipal de São Paulo, através da lei nº 11.544, de 07/06/1994.
O ano de 1890 foi definido em pesquisas feitas por Manoel Vieira da Luz Sobrinho, cujo tio, com o mesmo nome, consta da lista dos que primeiro receberam a luz elétrica no bairro, em 1922. Vieira da Luz Sobrinho gostava de contar histórias do Tremembé nos encontros de veteranos que aconteciam com freqüência na bairro. Em sua casa na Maria Amália Lopes Azevedo, em frente da agência do Banco do Brasil, a bandeira brasileira está sempre hasteada. Foi com tristeza que o Tremembé perdeu esse batalhador de suas causas, em Setembro/2008, aos 93 anos de idade.
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Tramway da Cantareira saindo do Tremembé pela r. Mamud Rahd (1925) |
Água em abundância nos mananciais da Cantareira fez a cidade de São Paulo construir uma pequena estrada de ferro, em 1890, para transportar os equipamentos e materiais para construir o primeiro reservatório, para acabar com o crônico abastecimento de água da cidade. Bem ao lado do reservatório construíram uma pedreira. Então o trenzinho levava equipamentos para a serra, e trazia pedras para o crescimento da cidade. E assim pequenos ramais no Tremembé transportavam as pedras das diversas pedreiras para a linha principal do Tramway da Cantareira, ou trenzinho da Cantareira. Ao mesmo tempo essa linha passou a transportar passageiros, fazendo crescer a população da região.
Lever Brasil, 81 anos, escreveu o samba "Tremembé", que já tocou em diversas festas da região. Apaixonado pelo bairro, ao casar foi morar junto à linha do trem, na Vila Rosa, em 1948. Sua mulher Norma já morava ali, pois o pai era funcionário do Horto. Sua casa ficava (e fica) na beira da rua São Cleto, exatamente por onde o trenzinho serpenteava, entre a penúltima estação, Tremembé, até a última, Cantareira. A parada Santa - nome dado a uma parada informal do trenzinho, em homenagem a uma matriarca da família Arnoni que por ali levava suas verduras ao mercado central - a parada Santa ficava ao lado da casa de Lever Brasil. Seu filho, Lever Brasil Junior, conta que certa vez, postado no alto de um morro próximo, observou o trem descarrilhar. Ao correr para ajudar, soube que os únicos ocupantes do vagão eram sua mãe e sua irmã. Felizmente saíram ilesas do susto. O final da rua São Cleto foi fechado pelo atual clube de funcionários da SABESP, e o fechamento se fez com os antigos trilhos da linha, fincados no chão como uma cerca. A única estação sobrevivente de toda a linha do Tramway da Cantareira está conservada dentro deste clube.
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Lever Brasil com os filhos. Estação Cantareira preservada. |
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O trenzinho trazia muitos italianos para os piqueniques de Domingo no parque da Cantareira. Por falar em italianos, a família Arnoni é um marco da presença européia no bairro. Os pioneiros foram cinco irmãos Arnoni, por volta de 1900: Francisco, José, Luiz, Rafael e Carmella. Compraram os lotes da fazenda dos Vicente de Azevedo, ergueram a Vila Irmãos Arnoni, e até hoje muitos descendentes estão no bairro.
O clima e relevo do Tremembé lembravam as terras do velho continente, e assim vieram muitos alemães, poloneses, lituanos, holandeses (lembrar do tradicional restaurante Recreio Holandês), e até... árabes, morar na região. Assad Mohamad Taha, famoso como Mamede, chegou com os pais no Tremembé em 1937, para abrir um empório na esquina da então av. Dr. Pedro Vicente com a rua Pedro. São 70 anos de Tremembé. Vendeu os lotes das Palmas do Tremembé, na década de 1950, quando aquele trecho da Maria Amália Lopes de Azevedo se chamava Estrada de Guapira. Ele mostra a planta do loteamento e confirma. A casa onde hoje se encontra a imobiliária Mamede, na tradicional esquina da Maria Amália com a Nova Cantareira, era a "pensão da dona Nela", onde ficavam hospedados os visitantes do antigo Tremembé da Cantareira. Ao lado, onde está o posto BR, ficava um casarão muito grande, possível sede da fazenda dos Vicente de Azevedo. Por isso a região é conhecida como "Fazendinha". O casarão foi demolido na década de 1970, e hoje se trata de uma esquina saturada, com fila de carros nos quatro lados do semáforo.
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Mamede, há 70 anos no Tremembé, e esquina da "Fazendinha". |
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Além dos trilhos, das rochas e das fontes, o Tremembé também tinha uma queda especial pelo futebol. O Clube Atlético Tremembé - CAT tem histórias de partidas antológicas, como aquela em 18/02/1951, quando o trenzinho da Cantareira, que passava ao lado do campinho, parou para ver um pênalti ser batido, na partida entre CAT e Jabaquara, cuja principal figura era o jovem goleiro Gilmar do Santos Neves, futuro bicampeão mundial. Epaminondas Mota, o Nondas, foi titular do esquadrão do Paulistano que fez sucesso na Europa em 1920. Eduardinho Arnoni foi camisa 10 do Corinthians de 1942 a 1945, marcando 30 gols pelo Timão. Ricardinho, que jogou na copa de 2002 na Alemanha, é de famílias tradicionais do bairro. E o futebol do Tremembé ficou triste, com a perda neste ano de Geraldo Perini, o Bolão, que tinha seu comércio de materiais elétricos na Maria Amália, quase em frente à igreja de São Pedro. Bolão fora eleito em 2003 pelos veteranos do CAT como o goleiro da seleção de ouro dos quase 90 anos do clube.
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Porteira na frente da estação Tremembé (dec. 1960). Praça hoje, em reforma. |
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A estação Tremembei (o "i" para distinguir da estação Tremembé da Central do Brasil) foi demolida logo após o encerramento da linha do trem, em 1964. Ficava na atual praça Dona Mariquinha Sciascia. Pequena praça para a grandeza do Tremembé. De tantos projetos megalômanos e magníficos que já teve, nesse momento passa por uma pequena reforma, que promete calçada nova e canteiros mais bem cuidados.
Na virada dos anos 1980 toda a grande área do distrito do Tremembé passou por uma forte e predatória especulação imobiliária. Muitas invasões, muitos bairros irregulares surgiram e foram depois legalizados. A cidade chegou ao pé da Serra da Cantareira e subiu pelo eixo da av. Cel. Sezefredo Fagundes. Pequenos núcleos verdes resistem, com um cinturão protegendo o Parque Estadual da Cantareira. Lembranças e saudades.
10/11/2008, parabéns Tremembé, por seus 118 anos.






