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A ÁGUA, A RODOFERRADURA, E OS PERIGOS DO BODE NA SALA
Carta ao presidente da Sabesp
Prezado sr. Gesner.
Nos últimos tempos a comunidade da Zona Norte tem acompanhado sua ação comprometida com mais do que "apenas" fornecer água de qualidade nas torneiras da cidade. Tem acompanhado seu esforço de conscientização ambiental, em seus textos publicados nos jornais, sua presença e trato afável com todos e, em especial, a meta de transformar a Sabesp em uma "empresa de soluções ambientais", para o que a realização de 17 audiências de sustentabilidade (o ZNnaLinha todas elas) é um detalhe que confirma o novo viés da empresa.
Dessa forma, certamente o senhor tem conhecimento da dimensão e da importância com que se reveste a anunciada obra do RODOANEL no trecho NORTE da cidade, para a saúde ambiental de todos nós. Assim, queremos rapidamente tecer uma linha de raciocínio, que passa pelos três itens do subtítulo:
ÁGUA
Sem água não vivemos. Desnecessário dizer mas, exatamente por isso, lá no "distante" ano de 2002, toda uma comunidade se levantou e brigou contra o traçado proposto para o trecho Norte do RODOANEL, que substituía o anterior, com trechos de túneis, mais próximo à mancha urbana. Talvez pela inviabilidade técnica e de custo, a proposta passando por túneis (que chegou a estampar posters da cidade, de autoria da dupla Gepp e Maia, e registrada em outros mapas da grande São Paulo) foi substituída por uma que contornava por trás a Serra da Cantareira, passando em Caieiras e Mairiporã, muito próximo à estação elevatória da Sabesp. Essa estação bombeia para o alto da serra, para São Paulo, 60% da preciosa e imprescindível "seiva cristalina", como disse Camões, nossa água. Como os técnicos não observaram esse "pequeno" detalhe, foi necessário que a comunidade, através do enorme grupo denominado SOS CANTAREIRA, se dirigisse a todas as audiências públicas, munido de mandados de segurança, para impedir a homologação desse trajeto, até que a própria Sabesp, apoiada em pareceres do Instituto Florestal, também condenasse esse traçado. O Estadão de 16/04/2003 estampou a decisão final do governador Alckmin, sepultando a proposta do Rodoanel passar junto à represa Paiva Castro, em Mairiporã
(Clique AQUI para ver uma audiência pública interrompida. Clique AQUI para ver uma passeata com 2.000 pessoas no Tremembé, cantando "Rodoanel na Serra não!")
RODOFERRADURA
Em uma entrevista no dia 11/03/2008 no jornal da manhã da Rádio Bandeirantes, o governador José Serra, respondendo à pergunta do jornalista José Paulo de Andrade, sobre o o trecho Norte do Rodoanel, respondeu com todas as sílabas que não era mais Rodoanel, e sim RODOFERRADURA. Querendo significar, tudo indica, que o anel não fecharia, surgindo assim a rodoferradura Mário Covas, com os trechos Oeste, Sul e Leste funcionando, porém SEM o trecho Norte. Essa alternativa, a de não se fazer o trecho Norte do Rodoanel, já havia sido colocada pelo movimento SOS Cantareira lá em 2002, quando se percebia que a "maior obra civil em curso no país" não passaria pela Serra da Cantareira, "maior floresta urbana do mundo", sem deixar imensas seqüelas.
BODE NA SALA
Então, surpresa!, o caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo, de 28/04/2009, trouxe na manchete principal: "Novo Traçado do Rodoanel afetará Zona Norte", apresentando um "novo" traçado para o Rodoanel, passando ao pé da serra da Cantareira, já do lado da cidade de São Paulo. Pontos importantes na matéria: 1 - A urgência: o projeto básico do trecho Norte deve ficar pronto ainda no 1º semestre de 2010. 2 - O risco: Não se descartou o traçado antigo "criticado por ambientalistas por afetar área de manaciais".
Caro presidente Gesner, todos conhecem aquela pitoresca fabula do "bode na sala". A situação está complicada na sala. Aí se recomenda colocar um bode na sala. Colocado o bode na sala, a situação não melhora. Qual a solução então? Tira-se o bode da sala, e tudo parece melhorar, apesar de nada ter mudado realmente.
Caro presidente Gesner, ao senhor e à sua empresa cabe zelar pelo patrimônio mais importante que uma metrópole possui: o seu eficiente abastecimento de água. Sem essa eficiência, ou, no pior limite, sem água, a cidade praticamente morre. Muito mais importante do que vias para carros e caminhões, é o verde em extinção, e muito muito mais importante é a água jorrando nas torneiras das casas e empresas. O Rodoanel, com o seu porte gigantesco, ao interceptar as linhas de abastecimento de 60% da água consumida em São Paulo, é uma obra que precisa ser vista com absoluto cuidado. O "bode na sala" é anunciar o novo traçado, junto à cidade, que aparentemente reincide nos custos astronômicos de túneis e de desapropriações urbanas. Depois, uma vez que todas as campanhas (até Turma da Mônica está envolvida) dão o Rodoanel como obra imprescindível, retirar o "bode da sala" poderá significar novamente abortar essa traçado (em si também discutível em termos ambientais), e declarar como "mais viável" o outro traçado, do outro lado da serra, que em 2003 não só ambientalistas, mas o Instituto Florestal e a própria Sabesp desaconselharam.
Neste dia mundial do Meio Ambiente, quando todos os empreendimentos em todas as áreas pedem uma avaliação de custo/benefício ambiental para sua realização, ficam as perguntas: o Rodoanel trecho Norte é mesmo indispensável? Na balança de custo/benefício, tanto ambiental quanto financeiro, vale a pena? Á água de São Paulo não fica, ainda que remotamente, ameaçada?
Caro presidente Gesner, esta carta quer (certamente de forma desnecessária) chamar a atenção do senhor para o olhar preocupado que se deve ter sobre a questão.
Atenciosamente
Portal ZNnaLinha.
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