CHÁCARA NIAZI: TESOURO QUE A CIDADE NÃO PODE PERDER

Rua José Inácio de Oliveira, Imirim - Outubro/2009

Oculta em ruas tranqüilas do Imirim e do Peruche está a Chácara Niazi, com 63.000 m2 de área verde remanescente. Porém esse tesouro ambiental, a menos de 7 km do centro da cidade, corre risco de desaparecer.

Máquinas deixaram o terreno "limpo".

Essa grande gleba sempre foi observada com preocupação por ambientalistas e lideranças comunitárias, afinal chegou ao século 21 como um ecossistema verde no meio da selva de concreto. Mas a resistência a 455 anos de especulação imobiliária chegou ao fim: em Setembro máquinas iniciaram a terraplanagem de uma parte da chácara. Dias depois a área foi cercada com tapumes.

Através de uma placa na parte de trás do terreno, e de indicação de moradores, a reportagem apurou que se trata de uma obra empreendida pelo Instituto Hei Sei, escola voltada para a comunidade japonesa, situada bem próximo ao terreno. Contato com a subprefeitura complementou a informação: a área, que parecia única, na verdade tem dois registros imobiliários. O terreno menor, com 18.000 m2, foi comprado pelos empreendedores. O maior, com 45.000 m2, exatamente a parte onde a vegetação é mais densa, não é alvo da atual obra. Uma parte desse terreno é cedido pela família Niazi para uso pela ONG norte-americana Jocum - Jovem Com Uma Missão.

Parte de trás do terreno.
A ONG Jocum ocupa parte do terreno maior.

Segundo a subprefeitura, todos os 63.000 m2 têm um "DUP" - Decreto de Utilidade Pública sobre eles. Está em análise junto à Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente (SVMA) uma espécie de "anistia" para a área menor, liberando-a para o uso do Instituto Hei Sei. A subprefeitura acredita na manutenção da área maior como parque, conforme afirmou o subprefeito Walter Abrahão Filho, entusiasmado com essa possibilidade. A direção do Instituto afirmou que a comunidade ficará satisfeita ao conhecer o projeto: uma espécie de centro cultural, com grande área livre para uso da comunidade japonesa. Contudo, fica a questão: se hoje um dos terrenos pode ser "descongelado", permitindo um empreendimento particular, qual a garantia de que o terreno maior não sofra o mesmo descongelamento no futuro? A SVMA, a subprefeitura e a comunidade precisam definir essa situação, sob risco de ver esse tesouro dilapidado.

A vegetação frondosa está no terreno maior, de 45.000 m2.



Minudências

@ Marcio Marcelino, geógrafo e professor, nasceu e cresceu no Parque Peruche, ao lado da Chácara Niazi. Autor de um livro sobre o Peruche, é uma das pessoas que acompanham há anos essa situação. Fizemos algumas perguntas para Lino, como é conhecido.

Qual a importância da chácara, para a região da Casa Verde e para cidade?

É uma ilha verde na metrópole, além de ser uma área interessante do ponto de vista ecológico. Tem a ver com a necessidade de conquistarmos espaços para o exercício da cidadania, onde permita atividades socioculturais e ambientais.

E a comunidade? Ela está antenada na situação e no futuro da chácara?

Ela possui uma breve idéia, muito pequena, mas há um interessante trabalho para que essa informação chegue até a comunidade.

Com as atuais propostas de uso para a área, o aspecto ambiental corre risco?

A principal proposta de uso é para atividades de um instituto educacional (oscip) onde haja também uma integração entre culturas. Não vejo um risco para a área, pois o Instituto vai ocupar uma área degradada em termos ambientais, tem uma proposta sustentável e ainda colaborará para um melhoramento significativo em termos urbanísticos. Porém deve haver um esforço entre o próprio instituto, poder público e privado, além da comunidade, que juntas devem assumir a responsabilidade de um bom uso para o local e batalhar pela possibilidade de agregar a área vizinha (esta ambientalmente preservada) para a constituição de um parque público anexo ao instituto, formando assim um espaço integrado e completo para as atividades propostas pelo instituto.

Como você visualiza a chácara Niazi daqui a 5 anos?

Uma referência para a cidade, um modelo de integração entre o público e privado, com um instituto que realiza sua responsabilidade sociocultural ambiental, passando longe de questões assistencialistas e filantrópicas, pois a vocação cultural da região deve ser levado em conta, e para isso a ocupação sustentável de toda a área (soma da área do instituto e da área preservada) deve se feita de maneira consciente e responsável, onde as diferenças culturais serão mais que respeitadas, servirão de base para a cidadania nesse mundo globalizado. Um espaço para realizações locais com pensamentos globais.